Internacional

Tropas da Eritreia se disfarçam com farda etíope para bloquear ajuda a Tigré

Refugiados de Tigré em alojamento do Unicef, em região segura da Etiópia, abril de 2021 (Foto: Unicef/Mulugeta Ayene)

Soldados eritreus permanecem no país um mês depois da garantia do premiê de retirada das forças estrangeiras

Soldados da Eritreia continuam em Tigré disfarçados com fardas do exército da Etiópia, afirmaram jornalistas da CNN norte-americana na quarta (12). A situação foi relatada apenas um mês depois da garantia do primeiro-ministro Abiy Ahmed em retirar as tropas eritreias da região em conflito, no norte da Etiópia.

A equipe flagrou soldados eritreus em Axum, na região central da província. Eles usavam velhos uniformes militares etíopes e controlavam postos de controle essenciais nas rotas de distribuição de ajuda humanitária à população local.

Há relatos de que os agentes ameaçam os profissionais dos poucos hospitais que ainda funcionam na província. Desde novembro, quando as tropas de Adis Abeba dominaram Tigré, há um esvaziamento de informações sobre o conflito. Ahmed decretou o corte de todas as redes de comunicação e fechou a província a estrangeiros.

Uma real ideia da situação só se confirmou quando refugiados começaram a atravessar a fronteira com o Sudão, a partir de dezembro. A maioria relata uma campanha de estupros, perseguição, assassinatos e a restrição a alimentos. O fator acentuou a necessidade por ajuda humanitária, também restrita na região.

Na região desde 21 de abril, a equipe da CNN relata que as tropas da Eritreia permanecem no país e trabalham lado a lado com o governo etíope na violência contra a população tigré.

Em algumas regiões, as tropas do país vizinho – antigo inimigo da TPLF (Frente de Libertação do Povo Tigré) – já tem controle do território na prática. Para analistas, há evidências de genocídio e potencial para desestabilizar toda a região do Chifre da África.

A pressão dos EUA para forçar a Eritreia a deixar a disputa não resolverá a situação, disseram os jornalistas. “Não há sinal de que as tropas eritreias planejam sair em breve”. Questionados, funcionários do governo da Etiópia em Tigré afirmaram que Adis Abeba não tem controle sobre os soldados eritreus no país.

Fome, estupros e pedidos por doação de sangue

Foram necessários vários telefonemas ao governo central da Etiópia e altos funcionários militares para permitir a entrada da CNN em Axum. Após quatro tentativas, as autoridades concordaram com a cobertura. Adis Abeba, porém, ainda não permitiu que diversas agências humanitárias entrem na cidade, sitiada.

No hospital, há placas pedindo doação de sangue urgente. A medida busca salvar crianças que padecem de fome nas macas espalhadas pelos corredores e mulheres sobreviventes de estupros – um aumento de casos nas últimas semanas, relatam os médicos.

Soldados e gangues capturam mulheres para drogá-las, estuprá-las e manterem-nas como reféns no conflito. Quase um terço de todos os ataques a civis envolvem violência sexual – a maioria cometida por homens uniformizados.

“Se encontrarmos sangue para salvar a vida dessas mulheres será apenas uma ou duas bolsas, e isso não é suficiente”, relatou um médico. O próprio governo da Etiópia estima que 5,2 milhões dos 5,7 milhões de habitantes de Tigré precisam de assistência de saúde e alimentar com urgência.

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