Opinião

Sonho de professor do Paraná

Por Sebastião Donizete Santarosa  

 

 

Hoje, vésperas de início de ano letivo em tempos de pandemia, tive um sonho como se fosse uma fotografia. A sala de aula estava cheia. Conversas, risos, reflexões provocativas, brilho nos olhos, esperanças brotando à flor da pele. Era a magia do ensinar e do aprender. Era a escola da alegria, do culto à liberdade e ao direito de criação e de recriação da própria vida.  

Mas, em um de repente, de forma muito rápida sem que ninguém esperasse, se fez um silêncio nebuloso.  

A porta da sala de aula se abriu e uma sombra gelada invadiu corpos e mentes dos estudantes. Pela mesma porta, entrou um sujeito magro, cheiroso e muito bem vestido.  

Em seu rosto se estampava um sorriso. Um sorriso estranho e assustador. Ele deu um bom dia a todos quase gritado. Em uma de suas mãos, o sujeito sorridente segurava uma corda.  

Em trejeitos de uma dança macabra, começou a puxar essa corda. Presos a ela pelos pescoços, começaram a surgir na sala os professores da escola.  

Cabeças caídas, corpos amarelados, mãos amarradas atrás das costas, bocas amordaçadas. “Entre, queridos mestres. Vocês são o que a escola tem de mais importante. Sem vocês, jamais atingiremos nossos objetivos”, bradava a voz do sujeito sorridente, dominando todos os espaços da sala e congelando o tempo.  

“Entrem. Entrem. Vejam o que eu lhes ofereço. Nosso estado, graças a vocês, terá a melhor educação do Brasil”.  

De uma grande sacola de supermercado, ele foi retirando equipamentos eletrônicos e colocando-os à frente dos professores amarrados.  

Eram celulares, computadores, câmeras, telefones, antenas, microfones, lâmpadas, televisores, coisas que nem sabíamos o que eram de verdade. “Vejam a maravilha dos recursos que trago para vocês. Nunca mais vocês precisarão se aborrecer preparando aulas e corrigindo provas”.  

Como mágico em um palco, ele tentou ligar um dos equipamentos para demonstrar a maravilha que era. Mexeu em um e em outro botão.  Não funcionou. O sorriso em seu rosto deu uma encrespada, amarfanhou-se.  

Uma teia de rugas se formaram ao redor de seus olhos. Parecia estar ficando muito irritado, mas rapidamente retomou a postura inicial de confiança e disse que os professores iriam ter formação para trabalhar com aquele equipamento, eram só detalhes.  

Voltou -se para os alunos: “O que falta para nossos professores é domínio tecnológico. Muitos, infelizmente, ainda são verdadeiros analfabetos. Faremos testes seletivos anualmente para contratar novos professores, mais capacitados. Vamos criar meios para demitir aqueles que não se atualizarem. Queremos construir a melhor educação do Brasil. Isso se faz com tecnologia e com gente preparada para lidar com ela”.  

Os alunos, em silêncio petrificado, pairavam os olhares ao horror da presença dos corpos dos professores mortificados. O sujeito sorridente e bem vestido voltou -se novamente para eles: “A escola é para vocês. O mais importante é vocês aprenderem. Estou organizando muitos conteúdos, slides e exercícios que vocês receberão pela internet na casa de vocês todos os dias.  Vocês farão quatro provas de avaliação por ano. Vou colocar a polícia na escola para garantir a disciplina. Vou ensinar educação financeira pra vocês deixarem de ser consumistas. Vou tirar da escola essas disciplinas chatas que obrigam vocês a ter que pensar. Eu vou, eu vou…”  

E, como um disco riscado, uma fita enroscada, uma carta mal escrita ou um live com falhas de conexão, o sujeito sorridente começou a gaguejar. Raios de sofrimento inundaram seu rosto. 

 Fazia um esforço enorme para articular as palavras. De sua boca saiam grunhidos que ninguém entendia. Ele era agora uma máquina enguiçada, um motor estragado.  

De sua cabeça começou a sair fumaça. Começam a saltar parafusos e molas das pernas, dos braços, do abdômen.   

Do peito brotou uma lâmina afiada derretendo. Sob os olhares atentos e estupefatos dos estudantes, os professores começaram a levantar as cabeças, soltavam um a um os nós que prendiam as mãos e tiravam as cordas dos pescoços.  

Seus rostos começavam a ganhar cor e seus olhos voltavam a brilhar. Juntos, de mãos dadas, fizeram um círculo em torno do monte de peças soltas que até há alguns minutos formavam o sujeito sorridente e bem vestido.  

Com uma vassoura e uma pá de lixo, colocaram o monte de molas e de parafusos queimados no saco plástico do supermercado, aquele mesmo onde estavam os equipamentos eletrônicos.  

A sombra fria foi se desfazendo. Reecantados, professores e estudantes estampavam em seus rostos um sorriso alegre de quem ama a vida, de quem quer ensinar e aprender para torná-la ainda mais alegre e mais bonita.  

Dia 18 de fevereiro começa a nossa greve. #forarenatofeder é um imperativo ético. 

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