Internacional

Brasil é a principal rota do tráfico de ossadas de onças com destino à Ásia

Onça pintada vítima do tráfico mantida em zoológico de Gramado, Brasil, janeiro de 2012 (Foto: Divulgação/Fábio Grison)

Expansão chinesa na América Latina desde 2010 e fragilidade de fiscalização transfonteiriça fomentam prática

Em agosto de 2016, uma denúncia anônima levou a polícia militar até a zona rural do pequeno município de Curionópolis, no interior do Pará. No freezer de um antigo comércio local havia cabeças, peles e crânios de pelo menos 19 onças pintadas.

O padrão nos cortes dos ossos e da pele dos felinos sinalizaram que a quadrilha, presa em flagrante, era especializada em um tráfico até então desconhecido: o de ossadas de felinos selvagens – matéria-prima de artigos de luxo e produtos medicinais usados na cultura asiática, em especial na China.

A apreensão de Curionópolis chamou a atenção de biólogos e ambientalistas, que já monitoravam operações semelhantes desde o início de 2010. Até então, porém, as razões para o tráfico de partes de onça permaneciam desconhecidas.

Em junho de 2020, um artigo publicado pelo periódico Conservation Biology confirmou as principais suspeitas: apesar de escassos, registros de apreensões de órgãos de fiscalização apontaram uma relação entre a expansão do tráfico de ossadas de onças e o aumento do investimento chinês na América Latina.

O estudo revela que mais de 800 onças-pintadas, onças-pardas e jaguatiricas foram mortas para o contrabando de dentes, peles e crânios entre 2012 e 2018. Os dados, porém, englobam apenas as cargas interceptadas por órgãos de fiscalização e divulgados na imprensa.

A especificidade nos cortes confirmaram uma suspeita antiga entre os conservacionistas: as carcaças ou são enviadas aos países asiáticos ou ficam nos países latinos para atender a trabalhadores migrantes – em especial da China. Esses cidadãos estão envolvidos em megaprojetos, como estradas e barragens, que aumentaram dez vezes desde 2010.

O envio à China ficou evidente depois que o país foi o único não americano mencionado nas apreensões latinas. Além disso, um monitoramento do Center for Advanced Defense Studies apontou que partes de felinos selvagens figuraram em 31% de todas as apreensões globais de mamíferos em aeroportos em 2018. O gigante asiático foi o destino mais citado.

Ainda não se pode precisar o volume do tráfico de onças na América Latina, mas uma reportagem do jornal boliviano “El Deber”, de janeiro, apontou pelo menos três máfias internacionais responsáveis pelo controle do contrabando desses animais. Cidadãos chineses residentes na Bolívia são a maioria na composição dos grupos.

“Você precisa subornar alguém”, diz um negociante de peças de jaguaritica após ser questionado por um investigador disfarçado. “Não subornamos a alfândega, mas a polícia ou um oficial de alta patente”. O contrabandista revela que o tráfico ocorre por contêiner, e o principal país-rota é o Brasil. “Tem mais empresas comerciais lá”, justifica o homem.

Operações complexas

Conforme a investigação, os criminosos estão concentrados nos Departamentos bolivianos de Santa Cruz e Beni – ambos na divisa com o Brasil. Apesar da falta de estradas e da consequente dependência do tráfego aéreo nessas regiões, os traficantes se articulam de forma singular.

O primeiro contato ocorre pelas redes sociais, principalmente via aplicativo WeChat – plataforma comum à população chinesa dentro e fora do país asiático. As tratativas tornaram-se mais discretas desde 2017. Até então, rádios locais transmitiam a “compra de presas de tigre”, e anúncios impressos buscavam “peças de onça”.

Ao que tudo indica, a discrição favoreceu o negócio: desde janeiro de 2019 não há novas apreensões de partes de onça na Bolívia, conforme levantamento do Mongabay Latam. O trânsito das peças não é difícil: os contrabandistas dão prioridade a aeroportos com menos segurança para levar presas na bagagem ou dentro do corpo.

Como as presas têm, no máximo, o tamanho de um telefone celular, elas cabem facilmente no bolso do traficante. “O tráfico individual é o mais utilizado”, disse Andrea Crosta, diretora executiva do ELI (Earth League International), que conduziu a investigação.

Além disso, depois que os dentes desses animais são adicionados a peças de joalheria, fica mais difícil reconhecer de que espécies foram obtidos “No final da cadeia, esses produtos podem ser facilmente lavados como um item legal”, concluiu o estudo da Conservation Biology.

Já os embarques em contêineres a países vizinhos acontecem por meio de subornos. Apesar de arriscada, a atividade é lucrativa: uma presa de onça, por exemplo, pode valer até dez vezes mais quando chega à China.

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