Opinião

A educação do Paraná é a educação da velha elite conservadora estadunidense

Por Marta Bellini

A educação no estado do Paraná vive seus dias deploráveis sob o governo Rato Jr e seu secretário, Feder. Não nos enganemos. Não é uma proposta de ensino ao léu, como parece. É uma proposta que vem do governo Temer quando este presidente golpista, aprova a reforma da previdência, aprova o não gasto durante 20 anos na educação e elabora um documento, a Base Nacional Comum Curricular, a BNCC, sob os auspícios de comerciantes da educação.

O corte de concursos públicos desde Richa é uma estratégia recrudescida pelo atual governador, Rato Jr. Aliado de Bolsonaro, o governador aplica a lição do presidente. A agenda de redução das escolas públicas e o não concurso de docentes desde 2014, com Richa, a terceirização das universidades, a aplicação de ensino híbrido, o ensino instrucionista vêm de longe. Vem dos EUA via políticos de direita ligados aos comerciantes de cerveja e educação, dos EUA ao Brasil.

Não foi à toa que um grupo de parlamentares brasileiros foi, em 2013, aos EUA, participar do seminário Liderando Reformas Educacionais e Fortalecendo o Brasil para o século 21, organizado pela Universidade de Yala, em parceria com a Fundação Lemann, a principal financiadora. Esse grupo, chamado Movimento pela Base pressionou deputados de suas bases na Comissão da Educação e está a serviço do comércio da educação. Na verdade, este segmento da agenda neoliberal quer disputa os fundos públicos do MEC e do MC&T, que têm orçamentos bilionários cobiçados.

No retorno desta viagem, o então deputado Alex Canziani (PTB-PR), presidente da Frente Parlamentar da Educação e integrante do Movimento pela Base, declarou que o objetivo da viagem era conhecer as “vantagens da unificação do currículo escolar” regido pelos nossos conhecidos Programas Instrucionais de inspiração comportamentalista, vendido, hoje, pela Editora Pearson às escolas privadas e algumas públicas no Brasil.

Os signatários da educação mínima, da substituição de filosofia, sociologia e artes por educação financeira são os velhos conservadores dos EUA, terraplanistas, anticomunistas e depositários fieis da família. Podemos vê-los no documentário The Family, Netflix, narrados como a velha guarda armada dos EUA, fiel depositária dos valores terra, armas, família e deus, que ficam nos corredores do Capitólio estadunidense fazendo aliados para destroçar qualquer segmento progressista. São desses senhores e seus aliados a estratégia de educação instrucionista para alunos pobres, indígenas e negros e uma educação diferenciada para os que podem pagar a mais por disciplinas que não são oferecidas no currículo mínimo. Não há novidade, pois com a a agenda do secretário de Rato Jr.

Em síntese esse ensino divide-se em dois. Dá o status moral de “aluno ilucrável” um ensino descartável e degradado e ao “aluno lucrável”, àquele que pagará aulas extras para disciplinas. É só ler o relatório “Uma nação em risco”A nation at risk – preparado pela National Commision on Excellence in Education, Comissão Nacional de Excelência em Educação, de abril de 1983, com o presidente Ronald Reagan que existe até hoje nos EUA.  É a educação preconizada por comerciantes do ensino do Movimento pela Base sustentado pela Fundação Lemann e por deputados e empresários interessados nos recursos do Ministério da Educação, o mais polpudo dos ministérios.

Nesta história está a destruição da Base Nacional Comum Curricular, a BNCC. Tivemos duas versões da BNCC em discussão no Governo Dilma Roussef com a participação horizontal de educadores, pesquisadores e participantes do Conselho Nacional de Educação. Com o golpe de 2016, Temer substituiu os educadores pelo empresariado.

Daí que a versão final da BNCC aprovada já no governo Bolsonaro não contou com professores no processo. Mais realista do que o rei, o governo Ratinho Jr., jogou as mudanças na conta da BNCC. A própria militarização das escolas públicas impôs um grupo de militares aposentados ou dispensados de seus serviços, nas direções de escolas sem anuência dos docentes para dar às crianças e jovens um ensino técnico com testes, aplicativos e bonificações.

O secretário da educação do Paraná está se sentindo o rei da BNCC empresarial. Aplica o pior da BNCC, a BNCC do Itaú, da Natura, do Lemann, do Santander. Essa BNCC criará vazios, a ausência de disciplinas que serão ocupadas por projetos de ensino a distância. Pior: as escolas públicas – com esse vazio – poderão contratar empresas privadas para o ensino a distância por aplicativos dos conglomerados empresariais. Estamos no reino das metas da indústria educacional.

Daí a estratégia de não realizar concurso público nas instituições públicas.  Os docentes serão substituídos por professores de ensino remoto muito provavelmente pagos por hora, lembrando a reforma do Temer. As escolas públicas serão escolas sem diretoria pedagógica, isso ficará a cargo do dono do ensino remoto. Nada como por militares reformados na gestão de comerciantes do ensino.

Um adendo: nos EUA essa educação foi barrada pelas comissões de professores que investigaram os dados usados no relatório dos velhos capitalistas terraplanistas. Pesquisa feita pós 1989, com entrevistas a docentes e visitas a escolas mostraram outro resultado. Os empresários da educação perderam a adesão ao relatório e à reforma preconizada. O que se viu foi que as taxas de conclusão de ensino médio não estavam caindo, tendo se mantido estáveis nos últimos 20 anos; 2) a participação do quadro discente daquele país no ensino superior era a mais alta do mundo, e não havia escassez de estudantes interessados em cursos vinculados às áreas de ciências naturais e engenharias; 3) O aumento dos gastos com educação ao longo dos 15 anos anteriores à pesquisa devia-se quase que inteiramente à educação especial, sendo, portanto, injusto afirmar que o aumento do financiamento não havia melhorado o desempenho dos alunos em geral.

 

Marta Bellini: É Professora e Doutora em Psicologia. Departamento de Fundamentos de Educação da Universidade Estadual de Maringá

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