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Vera Antônia; uma história de amor e dedicação ao próximo

Natural de Paropeba no estado de Minas Gerais, Vera Antônia Figueiredo nasceu em 13/06/1923, dia em que se comemora Santo Antônio, daí o nome Antônia em homenagem ao santo. Para aquela época, Vera foi um nome moderno e diferente, ela dizia. Pertenceu a uma família numerosa, cujos pais Sebastião Canuto de Figueiredo e Maria Fernandes da Silva, educaram seus filhos de maneira rígida e centrados no trabalho.

Vera teve a chance de brincar com seus irmãos e primos até a idade de sete anos, momento em que começou a ajudar nos afazeres domésticos que eram divididos entre os irmãos e as irmãs.

Assim, ainda infante, recebeu a incumbência de ser a cozinheira oficial de sua família. Sua obrigação diária, de domingo a domingo, consistia no preparo de cinco refeições, limpeza e conservação do ambiente da cozinha. Levantava ao alvorecer e preparava café da manhã, seguido do almoço, café da tarde, jantar e ceia. Essa foi sua rotina ao longo dos anos da infância e adolescência.

Sua irmã mais velha, Clarice, era professora na pequena cidade e dava aulas para os irmãos, sendo que Vera estudou apenas até o quarto ano primário. Aprendeu o que hoje inúmeros estudantes não aprendem ao término do Ensino Fundamental, quiçá Ensino Médio.

Juntamente com sua família, quando contava 16 anos de idade, veio desbravar as terras do Paraná, estabelecendo-se na incipiente Londrina, considerada o eldorado naquela época.

Aqui o modelo patriarcal de sua família prosseguiu, baseando-se na divisão dos afazeres domésticos para as meninas e o trabalho no campo para os meninos.

Vera, um jovem de pequena estatura, esguia e enérgica, demonstrou ser uma fortaleza nos anos que se seguiram, uma guerreira que enfrentou obstáculos, superou dificuldades, ausência de infraestrutura e de saneamento básico, comuns naquele tempo, assim como falta de médicos, remédios, gêneros alimentícios como açúcar e outros que desapareceram durante a Segunda Guerra Mundial que, mesmo travada tão distante, fazia sentir seus reflexos na região norte/noroeste paranaense que começava a ser colonizada.
Aos dezoito anos, em meio às muitas dificuldades financeiras que sua família ainda atravessava, contraiu matrimônio com Ermelino, 13 anos mais velho do que ela, passando a chamar-se Vera Figueiredo Barroso, ocasião em que retirou o nome Antônia, pois considerava antigo.

Tendo deixado Londrina onde se casara, morou algum tempo em Içara e, em seguida, juntamente com o marido e a filha primogênita, fixou residência em Astorga, cidade que adotou como sua e ajudou a construir, com muito trabalho e tenacidade, a exemplo de outros pioneiros. Foi mãe de mais dois filhos e quatro filhas, nascidos na casa onde moravam em Astorga, com apoio de sua sogra que era parteira, dona Jesuína.
Dona Vera, católica praticante, rezava o terço diariamente, não era supersticiosa, pois afirmava ter fé em Deus; pessoa simples, no entanto muito sábia, caridosa, sensível e enérgica, dificilmente saía de casa; gostava de música do gênero chorinho, que ouvia no rádio. O rádio foi seu fiel companheiro durante toda a vida.

Em relação às suas vestimentas, optava por tecidos lisos para seus costumes que era como se referia aos conjuntos de saia e casaquinho, não usava estampas, xadrez, nem cores quentes que chamassem atenção. Sua cor preferida era o verde, contudo também usava roupas na cor bege, areia, gelo, rosa-chá e branca.

Ao atingir 85 anos, resolveu inovar e, no recinto do lar, usava outras cores e até estampa animal print.

Sempre gostou de cozinhar, fazer doces e bolos, apreciava a leitura de romances e revistas, musicalidade não lhe faltava e era comum ouvi-la cantar e assoviar as melodias; com base na experiência adquirida com seus pais e com a própria vida, conseguia dizer as horas exatas observando a posição do Sol, olhando as nuvens, se estas se apresentassem no formato “rabo de galo” sabia informar se a chuva estava próxima ou não, a Lua também fornecia informações valiosas sobre o tempo, só precisava saber observar.

Declamava poesias para as crianças da casa e se divertia conjugando verbos em todos os tempos verbais, algo que dominava perfeitamente. Escrevia pequenos poemas sobre o cotidiano, sempre que sobrava um tempinho.

Tinha receio de entrar em piscina ou em rios, pois a água em quantidade a deixava apreensiva. Gostava de admirar rios ou mesmo o mar, este último visto pela primeira vez na idade adulta, a uma distância segura.

Doces tradicionais caseiros não podiam faltar em sua mesa, principalmente de leite, mamão, figo, cidra e limão.

Exímia no preparo de biscoitos de polvilho e pães de queijo. Dizia que o segredo de sua saúde era não cometer excessos, dormia cedo e levantava–se muito cedo, hábito que sempre cultivou.

Sua alimentação era frugal, não gostava de molhos e nem de cremes, daí ter sido sempre magra. Ajudou o marido na atividade comercial na Casa Azul em Astorga, para onde vieram nos primórdios da década de 1940.

Naquela ocasião, em geral aos sábados, juntamente com Francisca, uma trabalhadora doméstica que a ajudava, arrumava as noivas dos sítios da região, que vinham se casar na cidade e precisavam dar um jeito nos cabelos e fazer maquiagem que consistia em aplicar pó de arroz, rouge e um baton. Saíam lindas e perfumadas da casa e rumavam a pé em direção à Igreja Matriz, seguidas pelo cortejo de convidados. Simplicidade e alegria, mas precisava mais?


Com o passar dos anos, Astorga foi se desenvolvendo e Vera se adaptou aos novos ritmos da cidade; junto com o marido participava do Rotary Club, frequentava alguns bailes, todo ano levava suas crianças às matinês carnavalescas no Astorga Tênis Clube, o ATC, momento em que se divertia jogando confete e serpentina nos foliões.

Comparecia às festas infantis dos filhos das amigas com sua prole, proporcionando bons momentos de descontração e diversão para a criançada.
Dona Vera era conhecida de muitas pessoas em Astorga, por servir cafezinho com bolo, bolinho de chuva ou biscoitos caseiros a quem passasse em sua casa por volta de 15 horas, isso bem depois de não ser mais comerciante e ter se tornado dona de casa. Achava bacana receber pessoas conhecidas.

Com a morte do marido, no início da década de 1970, sem ter como manter-se adequadamente, já que não possuía recursos financeiros suficientes, foi morar em Boa Vista, Roraima, com duas de suas filhas; morou também em Pacaraima, no BV 8, situado na fronteira com a Venezuela.

Na capital, extremo norte do país, ela frequentava a igreja do bairro e, mesmo após ter se mudado para outra área da cidade, continuou a frequentar o mesmo templo, pois tinha amigos na comunidade.

Todos os domingos de manhã, durante muitos anos, seu genro a levava para participar da missa e a buscava, fato que ela sempre divulgava com gratidão.

Viajar era algo de que passou a gostar e, durante os muitos anos em que viveu na região Norte visitava o Paraná regularmente e passava algumas temporadas em Astorga, cidade da qual foi pioneira.

Perto de completar 90 anos ainda visitou a cidade que ajudou a construir, Astorga. Ficou viúva ainda nova, mas nunca mais se casou, costumava dizer que marido era apenas um e ponto.Dedicou-se aos filhos e a ajudar quem precisasse, conforme suas posses permitiam.


Nas diversas fases de sua vida, vivenciou mudanças econômicas e culturais havidas no país, estilo de vida, sentiu o medo e a influência da guerra, do golpe de 1964 seguido pelo longo período da ditadura militar, alterações sociais no país, sofrimentos, privações e etapas com dinheiro sobrando.

Ao longo do tempo, viu morrerem seus pais, irmãos, parentes, amigos, o marido e duas filhas, uma delas ainda menina de quem carinhosamente cuidou durante seis anos, após delicada doença que a acometeu, deixando-a presa numa cama até o desfecho final.

Vera, tão comunicativa, que fazia questão de ter a casa lotada de pessoas, com o avanço da idade, aprendeu a conviver com ela mesma, ficava sozinha quando não havia companhia e aceitou com naturalidade. Acalentou sonhos, inúmeros deles nunca realizados, apenas imaginados.

Em contrapartida, também teve momentos agradáveis e prósperos em sua vida, quando acolheu muitas pessoas que estavam chegando de outras regiões, parentes, ajudou especialmente dois de seus irmãos que viviam próximos ela, a melhorarem de vida. Deixou como legado aos filhos e filhas, a importância dos estudos, de ter um trabalho digno, respeitar as pessoas e animais, comprar somente o que puder pagar.

Conservou amizades leais em Astorga, afirmava que amigos devem ser valorizados, pois são nossos parceiros na caminhada desta vida; costumava lembrar com carinho e gratidão das amigas Bernardina Fagundes, Nenzinha Paulino, Celestina Frazão, Maria Celestina Machado, Olga Guapo, Aparecida Benservir, Maria Pinto, Maria José Lopes e a cunhada Alzira Barroso.

Em Boa Vista, a capital mais setentrional do Brasil e a única localizada totalmente ao norte da linha do Equador, fez amizade com jovens, adultos e idosos, contudo sua grande amiga foi Quitéria que sempre a visitava e nunca faltou, juntamente com as demais, nas festas de comemoração de seus aniversários, sempre organizados pela sua filha que sempre a incentivou a celebrar a vida.

Suas amigas roraimenses, nos dias de suas festas chegavam a bordo de uma Van alugada, na casa onde Vera morava e a alegria inundava os corações, com arraial montado no jardim, pois comemoravam também Santo Antônio.

E foram muitos os aniversários festejados, pois Vera alcançou a longevidade, saudável e lúcida com seus quase 95 anos, até seu falecimento ocorrido em 08/06/2018, de causas naturais, cinco dias antes de seu aniversário. Celebrou linda, junto ao Criador, em sua derradeira e grande viagem.

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